Para quem vive da sua arte

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”O pássaro perde a pena
O peixe perdeu a escama
Vivo perdendo tempo
Com aquele que não me ama.

Meu bem, se fores à feira
Traz uma prenda galante
Não quero nada de ouro
Um beijo seu é o bastante.

É triste o amor terminar
É triste o amor ter fim
É triste gostar de você
E você não gostar de mim.

Se em você me encontrei
Comecei a te amar
Por você me apaixonei
Com você vou me casar.

Mulher é como dinheiro
Saúde ou algo mais
Por isso é que sempre digo
Ambos nunca são demais.”

Claro que não é meu. É do senhor Osvanio de Almeida, o Pelé do trem. Acho que não teria esse talento nem a perseverança desse senhor de uns quase 80 anos.

Muita gente ganha bem; contudo, detesta seu trabalho. Outros trabalham no que sobrou de opção ou seguiram o caminho que a vida determinou. Alguns, ainda, escolhem o trabalho apenas pensando no  status da função ou em quanto vão ganhar.

Em consequência, a sociedade sofre. Isso porque, dessa situação, resultam maus profissionais e serviços de péssima qualidade, simplesmente por certos profissionais não gostarem do que fazem. Querem apenas os frutos, como o juiz com poderes divinos no fato da agente de trânsito (já comentamos sobre isso em outro texto Senso de coletividade: esse texto é pra você), ou o juiz do caso da TAM que queria viajar à força. Queria usar outras profissões como exemplo, mas os juízes têm se superado.

Enquanto isso, no trem, no metrô, nas ruas, esses artistas anônimos fazem o que gostam. Passam dificuldade. Sempre que acho interessante, compro pra ajudar. Mas não se trata só disso: compro, principalmente, para fazê-los continuarem acreditando. Para não desistirem e passarem a ganhar a vida como maus profissionais fazendo coisas que não gostam.

Alguns, em outros casos, começam por necessidade e acabam descobrindo um incontestável talento para o que fazem. Tá aí logo abaixo, um dos melhores vendedores que conheço: vende caixas e mais caixas de qualquer produto, bomba no youtube, e os próprios passageiros do trem fizeram campanha para que ele chegasse a ser convidado a participar de programas de TV (procurar no youtube “Gordão do trem” ou “Gordo Chato do Trem“). Tudo isso sem formação acadêmica, cursos, MBA e sem ter lido nenhum livro de autor consagrado em vendas.

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Em vez de alçar vôos mais altos, contudo, segue todos os dias com sua rotina de venda nos trens, alegrando com suas piadas a viagem dos trabalhadores e ganhando sua vida de forma árdua e honesta gritando bordões do tipo: “Produto com zero por cento de gordura. A gordura está toda no vendedor” e “Escova de dentes ou chocolates com IPI reduzido, porque agora tenho MEI, sou microempreendedor”.

Não sei por que o texto acabou saindo assim – risos.
Queria, de início, só promover artistas de rua desconhecidos, mas essas  críticas me vieram à cabeça.

Retomando o rumo, não poderia esquecer as pessoas que vendem seus livrinhos de história, criações próprias, na porta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ou do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) ou ainda nos metrôs da vida, como é o caso do escritor Márcio Nunes (contato: www.facebook.com/escritormarcionunes ouescritormarcio@gmail.com), que escreve livretos de poesia e deixa você decidir quanto eles valem:

“Gosto do jeito que olhas para mim
Pois sei que por detrás desse olhar
Guardas um desejo sem fim
De comigo querer estar.

Gosto de poder sentir na pele
A sutileza do toque da tua mão
Que em mim resvala solene
E apazigua o meu coração.

Ouvir o som inebriante da tua voz
A penetrar fundo os meus ouvidos
Faz com que, num momento atroz,
Seja minguada a impureza do meu íntimo.

Aprecio a sua cativante fragrância
Que se compara ao perfume do jardim,
E só de pensar já fico na ânsia
De poder encontrar logo a ti.

Mas nenhum dos meus almejos
Pode, de longe, se comparar
Ao meu firme e fiel desejo
De provar o teu paladar.”

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Dos outros, apesar de não ter publicado aqui nenhum texto, deixo os contatos de email: fosforo_eletrico@hotmail.com e verdejar1984@hotmail.com.

Bem originais, não?

E você, o que acha disso tudo? Conhece algum artista anônimo? Conta aí.

Abraços,

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José Guimarães Gomes Júnior

About José Guimarães Gomes Júnior

Quando criei o Questão de Interessância, pensei numa forma de dividir e divulgar ideias, além de oferecer e compartilhar espaço com quem não tem. Gosto de escrever durante a noite na companhia da insônia que frequentemente me visita. Escrevo também nas viagens para o trabalho, já que o trânsito caótico e o transporte público de má qualidade do Rio de Janeiro me proporcionam tempo para isso.